Em cidades do agreste pernambucano e do interior cearense, cooperativas rurais vêm ocupando um espaço que os bancos tradicionais deixaram vazio: o crédito para pequenos produtores e artesãos. O modelo não é novo, mas ganhou tração nos últimos dois anos com o apoio de prefeituras e de programas estaduais de fomento.

Na cidade de Salgueiro, em Pernambuco, a Cooperativa Agreste Solidária reúne 340 associados. Eles depositam parcelas mensais em um fundo comum e, a partir desse montante, solicitam empréstimos com juros abaixo da média de mercado. A inadimplência, segundo a presidente da cooperativa, Maria das Dores, ficou em 4% no último ano — número considerado baixo para o perfil dos tomadores.

Como funciona na prática

O associado precisa residir na região há pelo menos dois anos e apresentar um plano de uso do crédito. Não é exigida garantia imobiliária; em troca, o grupo avalia a reputação do solicitante dentro da comunidade. "Aqui todo mundo se conhece", explica Maria das Dores. "Se alguém não paga, perde o apoio dos vizinhos — e isso pesa mais que um contrato."

No Ceará, iniciativa semelhante em Tauá atende principalmente mulheres que produzem queijo coalho e doces regionais. O crédito permitiu a aquisição de freezers e embalagens, ampliando a capacidade de venda para feiras em Fortaleza.

Limitações do modelo

Economistas consultados pelo Compra Agora alertam que o sistema não escala facilmente. "Funciona em comunidades pequenas com alta coesão social", diz o professor Carlos Henrique, da UFC. "Replicar em áreas metropolitanas ou em contextos de conflito fundiário é outra história."

Ainda assim, gestores estaduais veem potencial. O governo de Pernambuco anunciou linha de subvenção para cooperativas que atinjam metas de inclusão de agricultores familiares. O edital deve ser publicado em agosto.

Para os moradores de Salgueiro, a mudança já é palpável. Seu Antônio, 58 anos, usou o empréstimo para reformar o galinheiro e aumentar a produção de ovos. "O banco nem olhou na minha cara", conta. "A cooperativa olhou."

Ricardo Mendes cobre o Nordeste brasileiro. Repórter com 15 anos de experiência em cobertura do semiárido.